Vida oferecida para ganhar

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Nosso povo sofre muito. O trabalho é pesado, o dinheiro é pouco, a saúde é mal cuidada. Ao chegarem as eleições vêm as promessas. Alguns vendem seu voto por um pequeno favor, que se torna grande diante das necessidades de quem recebe. A Igreja e outros grupos interessados em cidadania entram numa campanha difícil para convencer da necessidade de uma outra consciência e um outro nível de participação. Alguns entendem a proposta, percebem que precisam reagir, sair da passividade que foi sendo colocada na cabeça do povo desde os primeiros dias da colonização. Mas outros, muitos, preferem sonhar com uma saída mais fácil: Quem sabe eu ganho na loteria? Ou sou sorteado num programa de show da TV? Ou meu time vira campeão e eu fico feliz por uns dias pelo menos?  Fica mesmo difícil chamar para a reunião, o estudo da realidade, a mobilização, quem já está cansado, tenso… Às vezes parece melhor ficar indiferente, “deixar o barco correr” e buscar pequenos alívios no lazer que estiver disponível. Imagine só: depois de lutar tanto para sobreviver, ainda gastar tempo e energia discutindo assuntos sérios? Quem agüenta? E aí o povo se anestesia como pode… e nada muda. Os romanos já sabiam do jeito de dominar as massas: era garantir pão (o mínimo para continuarem trabalhando) e circo (alguma diversão para que não se revoltem). Mas, se entre os mais pobres até se entende que é difícil pedir esforço a quem já está mais do que gasto, em outras classes sociais não parece ser diferente: todos querem um mundo melhor, mas de preferência que venha de presente, da forma mais cômoda.

Jeremias, o seduzido por Deus

Na busca de soluções mais fáceis muitos apelam para Deus: Ele pode, Ele vai resolver… Em Deus se busca também um espécie de “relax” espiritual: Ele me faz viver em paz, enche meu coração de alegria… Não deixa de ser verdade que a fé remove montanhas e pacifica tensões. Mas a paz que Deus dá já foi classificada de “paz inquieta”: não é exatamente a paz dos descansados e acomodados. A primeira leitura nos fala da experiência de intimidade com Deus vivida pelo profeta Jeremias. Para dar conta da intensidade do envolvimento, Jeremias usa imagens da união potente de uma relação amorosa que se expressa físicamente: Tu me seduziste, eu me deixei seduzir.  O que acontece então com esse “seduzido”? Entra em tranqüila paz? Fica indiferente a tudo que se passa em volta, só curtindo a presença de Deus? Considera todos os problemas resolvidos ou sem importância?  Parece que não. Jeremias se sente obrigado a agir, a falar… E não fala da paz do céu, reclama contra o que não está certo aqui na terra. Incomoda-se e   torna-se incômodo.Pelo menos é um sucesso, vira líder, é celebrado pelas multidões? Antes se torna motivo de zombaria. Muito humanamente, ele deixa claro que preferia não se envolver mais, ficar calado, cuidando da sua pequena vida. Mas não pode…  O fogo da paixão de Deus o queima, a consciência grita e o atira no olho do furacão. Dá vontade de dizer: Pobre Jeremias! No entanto, foi nessa inquietação pela justiça que ele mereceu que se diga: Grande Jeremias!Alguém pode dizer que Jeremias perdeu o sossego. Perdeu algumas comodidades, alguns aspectos confortáveis da vida. Mas não é um perdedor. Ganhou mais: entrou para a história, desenvolveu seus dons, tornou-se uma pessoa melhor, levou para a vida eterna a fidelidade à sua consciência. Mesmo atormentado, estava em paz consigo mesmo: fez o que tinha que fazer. Fez sua vida ter sentido. Ganhou a Vida.

O mundo é assim mesmo e sempre será… É verdade?

Cremos que o mundo saiu bem feito das mãos de Deus. A cada obra da criação, a Bíblia diz: E Deus viu que era bom… Não faz parte, portanto, da natureza da vida ser injusta, opressiva, desesperante. Se é assim, é porque entrou no mundo algo que não veio de Deus; os seres humanos é que o fizeram. O que nós fizemos sem Deus, vamos consertar com a graça de Deus. O Pai quer o bem de seus filhos. Não violou a nossa liberdade, mesmo quando escolhemos mal. Mas Deus não se conforma com os resultados e é nosso maior parceiro na hora de consertar o errado. É possível? A humanidade está atrasada, o peso do pecado é grande. No entanto a história caminha, a consciência humana se desenvolve na direção do Reino. No tempo de Jesus, e muitos séculos depois, a escravidão era considerada normal. Hoje, se houver trabalho escravo, é ilegal, ofende a consciência da humanidade. Houve um progresso nessa e noutras áreas de direitos humanos. Não foi um progresso natural, que aconteceu sozinho. Aconteceu porque houve quem se importasse, quem fizesse da mudança o seu projeto de vida. Muitos morreram, outros sacrificaram a vida de diferentes maneiras, renunciando à indiferença confortável porque tinham dentro de si um fogo igual ao de Jeremias. Alguns não sabiam nem o nome desse fogo, seguiam sua consciência sem saber que a voz que aí falava era a de Deus. Tornaram o mundo melhor. Ganharam a Vida, para si e para outros.

O culto verdadeiro se faz com a própria vida

Na carta aos Romanos, Paulo nos fala na vida oferecida todos os dias a Deus e diz que esse é o culto verdadeiro, o que agrada a Deus. Não estamos dispensados dos atos litúrgicos. Deus não precisa deles, mas nós precisamos, como alimento e expressão da fé, como elo que fortalece a comunidade. O culto precisa, porém, ser uma expressão verdadeira. Dizemos coisas muito graves a Deus numa missa, por exemplo. É possível que nossas fraquezas não nos permitam estar à altura do grau de compromisso suposto nesse tipo de celebração. Deus nos conhece. Não pede mais do que podemos dar. Nem menos.  Nós também devemos conhecer nossos limites para não entrarmos em destrutivos complexos de culpa. E também devemos explorar nossas capacidades para não sermos nunca menos do que podemos ser em generosidade, em caridade, em grandeza de alma. Não se trata de ser perfeccionistas. Quem só se contenta com a perfeição absoluta vai ficar sempre frustrado. Perfeito só Deus. Quando Jesus nos manda ser perfeitos ele está indicando uma direção não um ponto de chegada. Também não se trata de competir, de tentar ser melhor do que este(a) ou aquele(a). Na festa de entrega do Oscar, em 2002, o grande prêmio do cinema internacional, o ator premiado (Denzel Washington) se expressou assim: `Quando eu era garoto, queria ser o melhor ator do mundo. Hoje amadureci e quero ser o melhor ator que eu puder ser”.  Parece uma atitude interessante, a ser imitada: cada um(a) de nós é convidado a se tornar a melhor pessoa que puder ser.   

O Messias que Pedro queria

Pedro, movido pela graça, confessou a identidade de Jesus como Messias. Ganhou elogios, recebeu missão. Mas nem foi preciso mudar de capítulo no evangelho para ver que Pedro ainda não entendia direito as conseqüências da sua própria declaração. Jesus anuncia morte e sofrimento e Pedro responde, muito de acordo com a teologia da retribuição: Deus não há de permitir. O raciocínio que leva a isso é claro. Pedro tem fé, já descobriu que Jesus vem de Deus. Conseqüência lógica dessa linha de pensamento: Jesus teria que ser um vitorioso em termos humanos; quem está com Deus ganha todas as batalhas, como vemos em muitas partes do Antigo Testamento e como ouvimos ainda em muitas pregações de hoje. Logo, que história é essa de morte, cruz, sofrimento? Estamos, nós também, apesar de todas as pregações sobre a cruz, acostumados com a imagem do Deus dos Vencedores. Durante muitos séculos essa imagem esteve presente no imaginário popular. Ainda hoje há gente que acha que quem é rico foi “abençoado” por Deus. Por essa lógica, Jesus nunca poderia ser crucificado, tinha que viver muitos anos, cercado de prosperidade e sucesso.

De pedra de apoio a Satanás 

Jesus não deixa por menos. Chama Pedro de Satanás, aquele mesmo Pedro que ele tinha escolhido para chefiar a Igreja. É que Pedro, naquele momento, estava, sem saber, fazendo o jogo dos adversários do projeto de Deus, tentando conquistar Jesus para uma missão mais fácil, mais cômoda, sem a entrega radical da vida inteira. Na Bíblia, tradução da CNBB, lemos que as palavras de Jesus foram: Vai para trás de mim, Satanás!  Com isso Jesus estaria chamando Pedro a se tornar de novo um seguidor; o lugar do discípulo é atrás do mestre, para seguir seu exemplo. Não só Jesus passaria pelo martírio, mas também Pedro, que mais tarde entenderia melhor o que significava ser discípulo de tal mestre e chefe da Igreja. A Igreja tem sido ao longo da história um pouco como Pedro: capaz de confessar Jesus, exposta a fraquezas, às vezes fazendo o contrário do que Deus quer, mas heróica até o martírio, levando ao mundo o projeto de Jesus.

O que é salvar e perder a vida?

A vida é uma grande riqueza. Alguns pensam que podem economizar esse tesouro e têm medo de gastar a vida. Só gastando a vida se realiza alguma coisa. Gastar a vida é investir esforços em projetos que valham a pena. Quem investe com pena, sem ir fundo no compromisso, desperdiça a vida, não economiza. Ela se estraga quando não serve para nada. Isso pode ser visto em vários setores. O melhor pai, o mais realizado na paternidade, é o que mais deu de si a seus filhos, o que mais se gastou com eles. A melhor profissional, a mais realizada, a que mais se orgulha de ser excelente no que faz, é a que não economizou tempo e esforço para aprender, para se aperfeiçoar. O mesmo vale para o trabalho do Reino de Deus. Ser cristão pela metade é muito insatisfatório. Só quem se entrega de verdade descobre o tamanho da alegria que Jesus tem para dar, mesmo quando parece que a cruz domina o caminho e a gente ainda não experimentou totalmente a ressurreição.  

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