Uma de nós, sinal de vitória

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

A Assunção de Maria é uma bonita garantia para a nossa fé: uma de nós já chegou ao final feliz, à glorificação plena que Deus quer dar a todos nós. Maria participou da culminância da história humana, que foi a vida e a missão de Jesus. E participou como nossa representante. Jesus, mesmo sendo homem, era igual a Deus. Maria é uma de nós, somente humana, não divina. Ela subiu ao céu, diz a nossa fé. Olhando para ela, contemplamos o futuro que Deus quer oferecer a todos nós.

No Apocalipse, um símbolo da força salvadora de Deus

A primeira leitura nos mostra o símbolo de uma luta. De um lado, uma mulher grávida do Salvador; do outro, um “bicho de sete cabeças”, cheio de chifres, sinal do mal que deve ser vencido. A mulher tem 12 estrelas na cabeça; 12 é o número simbólico do povo: ela representa o povo de Deus, a Igreja. A função da Igreja é semelhante à função de Maria: ela deve fazer o Cristo nascer no mundo. Essa apresentação do nascimento da salvação ao mundo é tarefa de todos nós. Maria fez isso exemplarmente ao aceitar participar como mãe da vida sacrificada do Salvador. A luta para vencer as forças do mal é permanente. O bicho de sete cabeças tem muitos nomes e muitas faces: injustiça, materialismo, violência, miséria, corrupção, abandono de doentes, guerra… O próprio texto diz que a vitória do mal não será completa. Isso é expresso de forma simbólica quando o texto diz que a cauda do dragão varreu um terço das estrelas (não todas, ainda sobrou muita luz). É o mesmo que dizer: na luta contra o mal haverá perdas, mas nunca será uma vitória completa.  Nessa luta a mulher (que é a Igreja) e sua criança (o projeto de Salvação) são socorridos por Deus. Ele é que é a força que nos defende. Não é o poder da Igreja que resolve a questão: é a força de Deus. Se olharmos o simbolismo da linguagem do Apocalipse vamos ver que, humanamente falando, o dragão parece mais forte. Uma mulher é frágil, mais ainda se estiver grávida. Ela não teria como vencer. Mas Deus é maior. Essa é a grande força que a Igreja precisa ter: não é busca de poder humano, que nunca será forte o bastante, mas é entrega a Deus para que ele conduza as batalhas e nos abrigue. É significativo que a mulher seja conduzida para o deserto. Na experiência do povo da Bíblia, desde o tempo da fuga do Egito, o deserto é o lugar da intimidade com Deus. É ali, onde não há outros recursos, que fica mais claro o quanto dependemos da misericórdia do Senhor.

A força que vence a morte

A morte é o grande sinal de fragilidade humana. Os antropólogos dizem que o doloroso espanto diante da morte foi a fonte das perguntas que deram origem às reflexões e descobertas religiosas dos povos. Algo dentro de nós recusa a morte, estranha esse destino do qual ninguém escapa. Cada vez que alguém morre, a gente diz: Coitado! Como a pessoas tivesse, por azar, sido atingida por alguma coisa que se poderia evitar… Parece que nós todos de algum jeito sabemos que fomos feitos para a vida. É como se o próprio Criador nos tivesse programado com essa informação. Não sabemos exatamente o que significa a afirmação de que a morte é consequência do pecado. Talvez sem o pecado que se espalhou pela humanidade passássemos desta vida para a outra com mais suavidade, sem sofrimento. Mas sabemos, pela fé, que o pecado, a morte, o sofrimento, não têm a última palavra.

A carta aos Coríntios chama Jesus de “primícia” dos que morreram. Primícias eram os primeiros frutos de uma colheita, oferecidos a Deus, para dizer que a colheita inteira era vista como dom do Senhor. Jesus é o primeiro fruto da colheita que somos todos nós. Ele venceu a morte por nós. A porta que nós não podíamos abrir, ele abriu. Maria passou por essa porta. Como nós, ela não teria poder para vencer a morte, ela colheu frutos da vitória que Jesus fez florescer.

Ascensão de Jesus, Assunção de Maria

A Igreja tradicionalmente usa palavras diferentes para a volta de Jesus ao Pai e a acolhida de Maria no céu. A diferença é um lembrete, para ninguém confundir as coisas, para ninguém esquecer que o poder vem sempre de Deus. O Cristo ressuscitado tem essa força de Deus. Maria precisa desse poder, como nós. É muito bonito que ela seja um perfeito sinal de abertura à graça e que nela tenham sido realizadas as recompensas de Deus, de forma exemplar. Ninguém representa tão bem a docilidade ao Espírito, não houve discípula ou discípulo mais fiel do que ela. Mas, ainda assim, Maria não está no mesmo plano de Jesus, que é Deus. Seria importante lembrar disso e corrigir certos exageros que dão a Maria uma posição que não corresponde à doutrina da Igreja. Pode parecer muito simpático dizer: “Peça à mãe que o filho obedece” ou “Maria é tudo para mim.” Mas isso é uma inversão de posições e erro de doutrina: Maria, como mãe terrena, poderia mandar no menino Jesus em Nazaré. Diante do Cristo Ressuscitado, ela apenas pode pedir. Só Deus pode ser tudo, só Ele é o Absoluto. A própria Maria com certeza ficará muito feliz em ver que seguimos o seu exemplo e guardamos para Deus um lugar único, superior a tudo. Maria é nossa intercessora, com  carinho de mãe, ela não  se esquece de nós. Mas Jesus está em outro nível: é pessoa da Trindade, encarnação de Deus, com tudo que isso representa.

Bendita, porque soube acolher a graça e a vida!

Isabel proclama Maria como bendita ( = alguém de quem se pode falar muito bem). Ao longo da história, essa fala de Isabel tem sido repetida por multidões que se inspiram no exemplo de Maria como mãe e serva do Senhor. Qualquer mulher, quando se torna mãe, abre em sua vida um espaço de risco. Daí para a frente, não basta que tudo esteja bem com ela para que se sinta segura. Qualquer perigo que ameaça o filho rouba a paz da mãe. É como se a pessoa passasse a ser um alvo maior, tanto para a alegria como para o sofrimento: sendo mãe, além de ser atingida pessoalmente, a mulher está exposta a tudo que atinja o filho. E nenhuma mãe sabe o que vai atingir o filho. Ser mãe é um ato de fé na vida. Por isso, os bebês que nascem costumam ser celebrados, mesmo quando vêm ao mundo em situação precária. Maria acolheu a vida que Deus quis que nascesse dela. Daí para a frente sofre e se alegra junto com seu Jesus. Haverá momentos em que a oração de Maria não será tão alegre como o Magnificat que ela recitou na casa de Isabel. Que mãe já não teve momentos de oração aflita? Mas terá confiança em Deus e fará sua parte na história da Salvação. Ainda hoje a chamamos de bendita: ela nos convida a nos abrirmos com generosidade às missões que Deus nos dá.

Dentro da história de seu povo

A oração de Maria, que ouvimos no evangelho de hoje, está bem dentro da tradição judaica. A mãe de Jesus era uma boa judia, amava a religião na qual foi educada e na qual educou o próprio Jesus. Ela nos convida a olhar com respeito a tradição do Antigo Testamento, da qual nós também somos herdeiros. O Deus de Maria é o Deus de Abraão, o Deus das promessas que vão se cumprir em Jesus. Hoje cristãos e judeus são grupos religiosos separados, com uma história trágica por trás. A judia Maria de Nazaré, fiel seguidora do judaísmo e fiel discípula de Jesus, deveria ser um motivo a mais para termos especial consideração com o povo judeu e sua história. Nos tempos de hoje, onde ainda se faz guerra, usando a religião como pretexto, cristãos que tratam o judaísmo com respeito dão um exemplo importante na direção do diálogo e da construção da paz.

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-Reitor

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