Quem está mesmo a caminho com Deus?

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Às vezes temos na família ou no ambiente de trabalho pessoas que os outros acham que têm “gênio difícil”. Aí todo mundo reclama. Olhando de perto vemos que as coisas nem sempre são o que parecem. Aquele funcionário que sempre reclama quando aparece um trabalho novo talvez seja mais dedicado do que outro que não reclama, até para não ser notado, e acaba não fazendo o serviço que lhe cabe. Acontece na Igreja também. O padre exigente, que nem parece simpático, pode ser uma doçura numa conversa particular. Muitos ameaçam e não cumprem: são gente de coração mole, apesar de fala grossa. Outros são o que o povo chama de “come quieto”: sempre concordando com tudo, cheios de palavras simpáticas e no fundo inúteis ou até nocivos, disfarçando para serem deixados em paz. “As aparências enganam” – diz o povo com muita sabedoria. Com “conversa fiada” todos nós já fomos enrolados alguma vez. As pessoas têm maneiras muito eloqüentes de fazer publicidade de si mesmas. Mas nem todos são tão bons ou tão durões quanto apregoam ser. É sempre bom olhar mais de perto e examinar os frutos que cada um de fato produz.

Gente sempre pode mudar

Temos facilidade em cristalizar nosso julgamento sobre as pessoas. Se alguém faz algo negativo, daí para a frente é fácil criar má vontade com essa pessoa. Então interpretamos tudo que ela faz a partir do que pensamos que já sabemos sobre ela. É por isso que todos sabem que é muito importante cuidar da primeira impressão que causamos quando conhecemos alguém. Dizemos com facilidade: Fulano é (ou não é) assim. Na verdade ninguém é, sempre, necessariamente, deste ou daquele jeito. As pessoas um dia foram, estão sendo seja lá o que for… mas cada dia é um novo dia. Pessoas mudam. Além disso, as poucas ações que de fato, com certeza, vemos alguém realizar são realmente suficientes para afirmar o que a pessoa é, mesmo naquele momento? E se houver outros aspectos daquela personalidade que nós não conhecemos?

O profeta fala de gente capaz de mudar

O profeta Ezequiel fala da tendência que seu povo (como todos nós) tem de fazer julgamentos definitivos sobre as pessoas. Ele diz que fazem até algo pior: querem proibir Deus de levar em conta as mudanças de comportamento; querem que o Senhor fique cego diante das injustiças de quem no passado criou boa fama ou condene para sempre quem um dia errou. Chegam a acusar Deus de ter uma conduta errada! É ou não é muita pretensão?  Essa atitude, com tudo que tem de absurda, é muito comum. Freqüentemente projetamos em Deus nossas opiniões e dizemos que o Senhor aprova ou desaprova isso ou aquilo, guiados apenas pelo nosso ponto de vista. Esquecemos que Deus vê sempre mais longe, muito mais longe, e julga com seus próprios critérios. Ezequiel diz que Deus não age como o povo pensava. Quem fez coisas boas mas depois se desviou do caminho da justiça está mal com Deus, apesar dos frutos anteriores. Quem um dia errou pode mudar e passará ser considerado justo. Com isso o profeta dá dois recados O primeiro é um apelo à perseverança: não adianta a pessoa dizer que já fez muita coisa boa, que tem saldo alto na conta do céu: é preciso continuar no bem até o fim.  O segundo é uma mensagem de esperança: sempre é possível mudar, Deus não ficou para sempre de mal com quem anda por caminhos errados.

Julgamos muitas vezes do alta da nossa própria vaidade

É sintomática a atitude de quem vive se pondo na posição de juiz. Julga os outros quem se considera sempre certo. Ao dizer “Fulano tem este defeito” estamos jeitosamente insinuando que somos diferentes, melhores. De um modo indireto estamos dizendo: ele não é correto como eu. E com isso alimentamos a nossa vaidade. A segunda leitura de hoje fala dos perigos dessa vaidade. Recomenda que os cristãos vivam em harmonia e cada um faça exatamente o contrário do que a vaidade sugere: considere os outros como superiores. Não se trata de criar complexo de inferioridade ou de não reconhecer o próprio valor. Um boa dose de auto-estima é necessária para a saúde mental e a capacidade de servir. O que Paulo quer evitar é o “disse-me-disse” da fofoca que desmoraliza o outro e alimenta arrogâncias que são nocivas, mesmo quando vêm disfarçadas de conversa gentil.

Jesus, o grande exemplo de despojamento

Os cristãos têm um bom motivo para levar a sério a advertência de Paulo. Se alguém podia se sentir superior, esse alguém era Jesus, o próprio Deus encarnado. Mas Jesus fez completamente o oposto: viveu uma vida humilde e não se valeu da sua condição de Filho de Deus para ser tratado com gloriosas homenagens. Na verdade, até pediu que não falassem dos milagres que fazia. Foi ao último limite nessa doação humilde. Não apenas foi maltratado e deu sua vida. A morte de Jesus não foi uma morte qualquer: foi a mais humilhante que havia na época. Até do ponto de vista religioso a cruz era uma desmoralização. No livro do Deuteronômio estava escrito que aquele que morresse pendurado em madeira era uma amaldiçoado por Deus. Até a isso Jesus se sujeitou. Homenagens ele tem agora, depois que ressuscitou e foi reconhecido como Deus em mais de 2000 anos de expansão do cristianismo. Mas as glórias, os cantos, os louvores de hoje, não devem nos fazer esquecer o testemunho que ele deu, morrendo como um Zé ninguém, desclassificado, considerado maldito pelas tradições da sua própria religião. Alguma coisa muito séria Jesus estava querendo nos dizer com tal humilhação. Se nós o seguimos não podemos ser arrogantes e vaidosos: seria o contrário de tudo que ele ensinou e viveu.

A comunicativa história dos dois filhos

No evangelho Jesus dá seu recado numa parábola  bem fácil e direta. Fala de dois filhos: um que disse que não ia e foi; outro que disse que ia e não foi. Fica bem óbvio quem realmente serviu o pai. Fica claríssimo que fazer é mais importante que falar. Cada um de nós talvez tivesse algumas boas histórias sobre gente que diz uma coisa e faz outra, para o bem ou para o mal. Nós mesmos nem sempre fazemos exatamente aquilo que dizemos. Podemos ser, e freqüentemente somos, melhores ou piores do que indicam os nossos discursos. É bom lembrar para quem Jesus estava falando. A história é contada logo depois de uma polêmica com os sacerdotes sobre a autoridade de que Jesus dava mostras de ter quando ensinava e curava. Os sacerdotes se consideravam meio “donos” da Aliança e da tradição. Classificavam as pessoas como puras ou impuras por motivos de culto, de raça, até de saúde. Achavam-se os “bons filhos” do Pai celeste – e tinham sempre excelentes discursos para se justificar. Eram os eleitos, os que tinham dito “sim” à Aliança em primeiro lugar. Com a história dos dois filhos Jesus sugere que há outros, que não deram esse “sim” de forma tão visível e estão mais próximos de fazer a vontade do Pai.

Um escândalo: que gente é essa que Jesus diz que tem direito ao Reino?

Para coroar a conversa Jesus faz uma afirmação que até hoje muita gente na Igreja ouve com um certo mal estar. Ele diz aos que se consideravam santos: os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino dos Céus. Dá para imaginar o escândalo? Publicanos eram considerados traidores da pátria porque cobravam impostos para os invasores romanos.  Das prostitutas nem é preciso falar! Jesus diz que havia publicanos e prostitutas mais prontos para crer na mensagem do Reino do que aqueles que se achavam donos de Deus. Jesus não se guiava pelos rótulos de “pecadores” que os que se julgavam melhores colocavam nos outros. Em primeiro lugar, porque pecadores somos todos nós e depois porque as pessoas não enxergam tudo que precisaria ser visto na vida dos irmãos. Há muita gente que não está “em dia” com o modelo religioso das nossas Igrejas mas tem coração aberto para Deus no mais importante.  Hoje, nas Igrejas cristãs, esse recado escandaloso de Jesus continua sendo uma boa advertência: nem tudo é o que parece ser, não somos donos de Deus nem da virtude, há valores humanos importantes também nas pessoas que não cabem nos nossos regulamentos.

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-Reitor

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