POR QUE O MEDO, HOMEM DE POUCA FÉ?

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

“Estamos todos no mesmo barco!”. Muitas vezes ouvimos essa exclamação quando um grupo de pessoas, uma comunidade, às vezes um País inteiro, acham-se diante de um desafio ou de um perigo, e toma-se consciência de que ou todos colaboram na busca da solução ou todos podem afundar juntos! Os ecologistas hoje nos lembram que a Terra é como uma pequena nave no espaço, e que poluição, bombas atômicas ou efeito-estufa podem prejudicar ao mesmo tempo todos os seus habitantes, talvez acabar com a vida sobre nosso planeta. Outros, diante das ameaças de guerra e terror, diante da globalização crescente de todos os conflitos e de suas repercussões, nos advertem que estamos pondo a risco… o mesmo barco, a humanidade inteira. Alguns falam da nossa sociedade como de uma sociedade do risco e da incerteza. A angústia parece ser o sentimento mais comum hoje diante do futuro. Há muito tempo os cristãos consideram a Igreja um barco, muitas vezes agitado pelas ondas e outras vezes ameaçado pelas desavenças internas, que não afunda porque pode contar com a presença permanente de Cristo e do seu Espírito. Mas na hora do aperto, da tempestade mais violenta, nós cristãos também não temos medo?

Uma profissão de fé

O texto do evangelho (Mt 14,22-33) não é comum. É um relato que só Mateus conhece, ao menos na parte que se refere a Pedro caminhando sobre as águas[1][1]. Sobretudo surpreende a conclusão do trecho, quando os discípulos fazem uma solene profissão de fé, prostrando-se: “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!” (v. 33). Uma profissão de fé deste tipo, nos evangelhos, geralmente aparece só depois da morte e ressurreição de Jesus, quando os discípulos têm uma visão de conjunto de toda a existência de Jesus e a fé na divindade de Jesus se consolida e se confirma. Assim é na boca do centurião (o oficial romano), que tanto Marcos como Mateus colocam essas mesmas palavras: “Este era verdadeiramente o Filho de Deus!” (cf. Mt 27,54; Mc 15,39). Antes disso, só há uma exceção, devidamente valorizada por Mateus, e é a profissão de fé de Pedro que, por isso, passa a ser considerado a rocha sobre a qual Jesus edifica sua Igreja. Mas ela está mais adiante, em Mt 16,16 ss. Aqui, no capítulo 14 de Mateus, a declaração parece prematura, antecipada, inserida num momento em que não devia estar. Está claro, porém, que se trata de uma profissão de fé. O conteúdo do episódio o confirma. Quem caminha sobre as águas? Somente Deus. Para a Bíblia, as águas do mar são o lugar das forças caóticas, que ninguém pode domar, a não ser Deus. Só ele pôs limites às águas dos oceanos (cf. Sl 104,5-9). Só ele caminha “sobre as ondas do mar” (Jó 9,8). A profissão solene de fé que fazemos na Missa – o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, de Jesus Cristo diz que é “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. O evangelho de hoje faz a mesma profissão de fé – Jesus é Deus – com uma linguagem narrativa e dramática, que todos entendem: Jesus caminha sobre as águas.

Quando a fé começa a afundar

O evangelho não se limita a indicar a verdadeira fé. Lembra também que, nos discípulos, ela pode fraquejar. Pedro é novamente o discípulo tomado como exemplo – na fraqueza e na capacidade de recuperar a força e a confiança. A fé aparece aqui como audácia, como a coragem de enfrentar as ondas agitadas do mar e do mal! Mas Pedro duvida e começa a afundar. Deixou que o medo prevalecesse sobre a fé e perdeu força. Esqueceu a promessa de Jesus: Estarei convosco sempre, todos os dias, todo o dia! Não é difícil reconhecer uma linguagem simbólica neste caminhar de Pedro sobre as águas e neste seu afundar. Todos sabem que Pedro prometeu fidelidade a Jesus mesmo nas horas mais difíceis (cf. Mt 26, 31-35), mas acabou dominado pelo medo e traindo o Mestre (cf. Mt 26, 69-75). É aquilo mesmo que é dito aqui, com outra linguagem. A linguagem simbólica também sugere que o barco não é um simples… barco. É a Igreja, agitada (no tempo de Mateus), por perseguições externas e conflitos internos. Mas a mensagem é positiva. Jesus está com ela e ele tem poder de acalmar as tempestades.

Jesus tarda, mas não falha

São João Crisóstomo vê uma lição particular também no detalhe de que Jesus alcançou seus discípulos somente nas últimas horas da noite (isto é, entre três da madrugada e seis horas da manhã).  Jesus deixou os discípulos muitas horas sozinhos, com medo, num barco agitado pelo vento. Porquê? “É gradativamente e pouco a pouco que o Mestre conduz os discípulos a sentimentos mais elevados e os leva a suportar tudo com coragem. Quando pela primeira vez enfrentaram o perigo no mar, Jesus estava com eles, mas dormia, prestes contudo a devolver-lhes a coragem no momento oportuno. Agora, para dar-lhes mais força, não age da mesma forma, ele se afasta, e assim eles não enxergam nenhuma chance de salvação e durante a noite toda são agitados pelas ondas. Penso que o Salvador queria reanimar o coração deles, adormecido; e o medo que a tempestade noturna provocava neles lhe oferecia a ocasião. Jogando-os na angústia, inspirava-lhes um desejo mais vivo da sua presença e tornava constantemente presente a sua lembrança na memória deles. Por isso Jesus não veio tão depressa em socorro dos seus discípulos…”. Talvez algo semelhante aconteça muitas vezes conosco. Diante das “tempestades” da vida, temos a impressão que o Senhor não está cuidando de nós e nos esqueceu. Será que Ele não está colocando à prova a nossa fé e perseverança, pronto a intervir quando for mesmo preciso, mas só depois de nós aprendermos a lutar com mais coragem e fé? O evangelho quer garantir não apenas que Jesus é Deus, mas que ele vela continuamente sobre o barco da sua Igreja e sobre cada um de seus discípulos. Pedro, aqui também, é o modelo do discípulo.

O recado para nós

Este evangelho é um retrato realista e eficaz do discípulo de Jesus: não apenas de Pedro, mas de todos nós. Todos, como Pedro, queremos seguir Jesus até o fim, até no meio da tempestade e da provação. Mas não conseguimos seguir Jesus inteiramente. Falhamos, muitas vezes, e deixamos Jesus sozinho: no monte (onde reza), nas águas (“caminhando” sobre o mal), na cruz. Cada um de nós, como Pedro, deve reconhecer que não pode se salvar sozinho. Todos gritamos como Pedro: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30). Ou fazemos nossa a invocação do salmista: “Estende do alto a tua mão, liberta-me e salva-me das águas caudalosas” (Sl 144,7). Esperamos poder dizer: “Lá do alto estendeu a mão e me segurou, tirou-me das águas profundas” (Sl 18,17). Submergir e emergir das águas – sinal de vida e de morte – é uma marca do seguimento de Jesus. É o que acontece em nosso batismo: “Pelo batismo, em sua morte fomos sepultados, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). Pedro, que afunda e emerge novamente das águas, é a figura do discípulo de Jesus, batizado como Cristo o foi por João Batista (cf. Mt 3,16).

Padre Sérgio José de Sousa. OSJ

Pároco-Reitor


[1][1] O trecho que relata Jesus caminhando sobre as águas é conhecido também por Mc 6,45-52 e Jo 6,16-21.

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