Perguntas que mexem com a vida

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Dizem que uma pergunta bem feita já é metade da resposta. De fato, ao perguntar já começamos a desconfiar onde queremos chegar, já estamos arrumando o pensamento, encaminhando a reflexão (nossa e de quem ouve a pergunta). A pessoa se revela pelas perguntas que faz: elas mostram que inquietações a pessoa tem, o que ela considera importante, até aonde foi caminhando o seu raciocínio. Há perguntas que são afirmações disfarçadas. Imaginemos alguém que pergunta: Você quer casar comigo? Mais do que perguntando, a pessoa está revelando um anseio. Há pessoas que perguntam pouco, seja porque são tímidas ou porque não se deixaram provocar pela vida a ponto de formular questionamentos. Que pena! Nada ensina tanto como uma pergunta. As crianças, que precisam aprender muito em poucos anos, são naturalmente “perguntadeiras”. Há quem prefira que elas fiquem caladas, há quem ache que pergunta incomoda. É verdade. Incomoda mesmo! Mas são os inquietos, os que incomodam, que levam o mundo para a frente. 

A afirmação da sabedoria de Deus em forma de perguntas

“Quem conheceu os insondáveis juízos do Senhor?  Ao perguntar quem conhece os pensamentos de Deus estamos de fato afirmando que Deus tem caminhos que nem sempre compreendemos. É natural. Um Deus que coubesse na nossa compreensão não seria Deus. Isso quer dizer que nem sempre percebemos onde é mesmo que está ação de Deus. Costumamos dizer “foi Deus” quando acontece algo que nos agrada e costumamos perguntar “onde está Deus?” quando pedimos algo que não acontece.  Como se soubéssemos o que é mesmo melhor para nós, como se a sabedoria de Deus percebesse só o que nós percebemos…

Uma história para pensar nisso:

Um homem viajava num navio que naufragou. Achou um pedaço de madeira, conseguiu segurar-se nele e agradeceu a Deus. Apoiado na madeira, foi dar numa ilha desabitada e agradeceu a Deus. Juntou folhas de palmeira e pedaços de árvores e fez uma cabana para se abrigar. Quando ficou pronta, agradeceu a Deus. Saiu a procurar água e comida. Quando achou, agradeceu a Deus. Ao voltar da busca, encontrou a cabana pegando fogo. Ficou indignado e se queixou: Deus, como fizeste isso comigo?  No dia seguinte, foi recolhido por um navio que tinha visto a fumaça da cabana em chamas. 

Dar e receber, também com Deus?

Quem lhe deu algo primeiro para ter direito a uma retribuição? Anda muito em moda a chamada teologia da retribuição, que é o “toma lá, dá cá” com Deus.É assim: eu faço determinados atos religiosos, orações etc. e Deus fica na obrigação de me retribuir fazendo o que eu peço. É isso que está por trás de certas “preces infalíveis” muito divulgadas atualmente, ou da reputação de certos santos considerados “poderosos”.  Uma variante é a chamada teologia da prosperidade, segundo a qual quem é de Deus tem sucesso nos negócios, sobe na vida, tem todo tipo de sorte. A tentativa de manipular Deus, mediante fórmulas e gestos sagrados, faz parte do terreno da magia, não da religião. Deus não é um gênio encantado, obrigado a nos conceder desejos quando esfregamos a lâmpada mágica da oração. Deus não está à venda e se, por absurdo, estivesse, não teríamos como comprá-lo. Tudo que temos já é dele. O presente que podemos dar a Deus é uma vida bem vivida, com honestidade e justiça. Ele se alegra com isso porque nos ama, mas, na verdade, esse é um presente que damos, em primeiro lugar, a nós mesmos e, sempre, com a ajuda do próprio Deus. Presente para Deus é feito presente de criança no Dia das Mães ou no Dia dos Pais: vem daquilo que o próprio presenteado nos dá.

Estar com Deus faz crescer, mas não traz facilidades

Os grandes amigos de Deus fazem muitas dessas perguntas que são estímulos ao raciocínio do próprio perguntador. Quantas perguntas Maria deve se ter feito à medida que via Jesus enveredar por um caminho perigoso?! Fazer perguntas não é duvidar de Deus; é expressar sentimentos e clarear escolhas. Os grandes santos encontraram incompreensões e sofrimentos em sua missão. Nós também podemos muitas vezes, diante de um sofrimento, perguntar: Por quê? Uma pergunta mais sábia talvez seria: O que é que eu faço com isso? Que apelo essa dificuldade traz para o meu crescimento? Deus quer o melhor para nós. O melhor pode não ser, como não foi para Jesus, o mais fácil.  Jesus também se fez algumas perguntas, sobre o melhor modo de cumprir a vontade do Pai. As escolhas que ele fez, os rumos que tomou, dependeram muito da resposta que foi capaz de dar às suas próprias perguntas. 

A grande pergunta: Quem é Jesus para você?

Já haviam andado um tempo com ele. Já tinham dados para começar a responder. E a resposta era importante porque o que vinha depois era o escândalo da cruz. Estariam eles preparados? Sabiam mesmo a quem estavam seguindo? Na verdade, foi preciso passar pela experiência da ressurreição para que a resposta ficasse clara. É assim mesmo: a vida vai aprofundando nossas respostas, se não nos perdermos no caminho. Cada um(a) precisa responder sempre de novo: Quem é Jesus para mim? As diferentes respostas que damos ao longo da vida vão mostrando nossos valores, nossas motivações, o amadurecimento ou a infantilização da nossa fé.

A graça inspira respostas

Pedro deu a resposta que Jesus queria ouvir. Jesus louvou ao Pai porque Pedro não chegou a essa resposta sozinho. A fé é resposta a uma proposta, a um dom que tem origem no próprio Deus. Deus inspira, questiona, chama, dá a oportunidade, mas não impõe; é necessário abrir-se ao dom. Foi o que Pedro fez. Jesus ficou contente. Deu a Pedro a missão de ser pedra sobre a qual se assentaria a Igreja. Mas Pedro é uma pedra frágil. Sabemos o resto da história, sabemos como vai fugir diante do perigo e negar Jesus. No entanto, como era sincero na generosidade de sua abertura para a graça, vai depois de novo achar o caminho e cumprir com heroísmo a missão. O próprio Pedro com certeza compreendeu que o fundamento mesmo da Igreja não era ele, como pedra, era o próprio Jesus, o grande alicerce. Como instrumento, confiando na mão de Deus, apoiado na graça, foi capaz de dar conta do recado.  Essa confiança na graça foi expressa de forma pitoresca por um sucessor dos apóstolos, nosso querido e saudoso bispo D. Helder Câmara: Se a graça de Deus não me segurasse pelos cabelos, meu epitáfio seria ridículo: Afogado num copo d’água que nem ao menos estava cheio. (Mil razões para viver – Ed. Civilização Brasileira)

As forças da morte não vencerão a Igreja

Tendo Pedro dado uma firme resposta de fé e recebido a missão de ser o ponto de referência, a liderança da Igreja nascente, Jesus faz uma afirmação importante: As forças da morte (algumas traduções dizem “as portas do inferno”) não poderão vencê-la.  Jesus não diz que tudo vai sempre dar certo, que nunca haverá problemas, que nunca será preciso corrigir rumos. Ele diz que o mal não vai ter a vitória final, que a Igreja vai conseguir cumprir sua missão. Sabemos que há forças que ameaçam a Igreja. Essas forças podem ser externas (sistemas injustos, sociedade organizada contra a vida, perda de valores morais) e internas (pecados dos próprios cristãos, jogos de poder, falta de discernimento). Há situações históricas pelas quais a Igreja hoje pede perdão. O papa, sucessor de Pedro, tem feito diversos atos penitenciais em nome da Igreja.  Confessar falhas é um sinal de vitalidade, de estar querendo acertar. Temos sempre que, de novo, pedir a Deus que caminhe conosco, que nos ilumine, que nos dê a coragem para um processo contínuo de conversão. Deus vai realizar o que Jesus prometeu; mas será uma grande alegria um dia percebermos que fomos parte da solução em vez de ser parte do problema. Um meio de Deus nos estimular é provocar em nós as perguntas certas, as perguntas que incomodam e que nos deixam inquietos à procura de melhores caminhos.

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-Reitor

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