Perdão, instrumento de cura

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

O mundo vive com medo. Diante da situação mundial, o Papa tem se pronunciado muitas vezes a favor da paz. Quando ele fala de paz, fala também de perdão porque sem perdão verdadeiro qualquer paz é uma trégua muito passageira. Disse João Paulo II em 8/12/2001: “Orar pela paz significa rezar para alcançar o perdão de Deus e, ao mesmo tempo, crescer na coragem de que necessita quem, por sua vez, quer perdoar as ofensas sofridas. Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.”

Vencer o rancor – uma questão de sabedoria de viver

A primeira leitura nos vem de um livro do grupo dos chamados “livros sapienciais” da Bíblia. Foram classificados assim porque, na maior parte de seu conteúdo, tratam de normas de sabedoria de viver, de bom convívio humano. Vencer ódios e rancores não é apenas preceito religioso, é bom conselho para a saúde mental de crentes e ateus. Perdão faz bem até ao corpo, alivia tensões, devolve a alegria de viver, tira do organismo sobrecargas nocivas que impedem o corpo de funcionar a pleno vapor. Antes de trazer qualquer benefício a quem é perdoado, o perdão torna mais leve e prazeirosa a vida de quem perdoa. Raiva é uma carga muito pesada para a gente andar arrastando pela vida afora. 

Como pedir a cura fazendo questão de conservar a raiva?

O livro do Eclesiástico se espanta diante de pessoas que acham que podem pedir paz a Deus sem abrir mão de seus rancores. Tem razão. Não é que Deus castigue a pessoa, negando-lhe a cura pedida. É a própria pessoa que torna a cura impossível porque não existe vida sadia com o cultivo de sentimentos negativos. Quem acha a vingança natural e justificável vai viver com medo porque vai sempre achar que Deus, sendo justo, também se vingará. Só experimentando a leveza que vem de dar a alguém um perdão verdadeiro a pessoa estará em condições de compreender o perdão de Deus e contar com ele.

Pertencemos ao Senhor, que ama a todos

Mas, dirão alguns, perdoar não é assim tão fácil, temos mágoas que nos marcaram, não basta simplesmente decidir passar por cima do mal que alguém nos fez. Poderíamos nos lembrar, em primeiro lugar, que é muito difícil que alguém seja tão perverso que já acorde de manhã dizendo, como um vilão de desenho animado: Mais um dia para eu fazer maldades! Quem eu vou prejudicar hoje? Geralmente, até as pessoas que cometem o mal procuram se justificar diante de si mesmas, querem achar um jeito de dar um nome menos feio ao que fizeram. Por que? Porque todos nós gostamos de pensar em nós mesmos como pessoas boas. Se alguém não faz mais isso, provavelmente está psiquicamente muito doente. Cabe sempre, então, procurar os motivos do mal realizado. Muitas vezes vamos descobrir que a pessoa que nos feriu está mais ferida no seu ser profundo do que nós. Outra coisa que pode ajudar muito é tentar ver a outra pessoa como Deus a vê. Chama-se a isso “exercício de amorização”. Imagine que estão os três juntos numa sala: você, a pessoa que o(a) feriu e Deus, pai de ambos. Como seria uma conversa na frente desse Deus que não exclui ninguém do seu amor?  Rezar pelo bem da outra pessoa também é bom: amolece o coração.

E até onde temos que ir com o perdão?

O evangelho nos mostra uma conversa bem esclarecedora. Pedro conhece a lei de Deus. Sabe que deve perdoar. Parece que quer se exibir um pouquinho ao perguntar se o perdão deve ser dado até sete vezes. Sete já era um número simbólico, o número da totalidade. Pedro devia achar que, usando o sete, ele já estava expressando uma amplitude bem generosa de perdão. Jesus, porém, reforça ainda mais o valor simbólico do sete (que já significava sempre, todas as vezes). Ele diz: não sete vezes, mas setenta vezes sete. Ou seja: sempre, mesmo, sem exceção. O que Jesus está querendo? Fazer da gente um saco de pancadas? Dar licença para todo mundo ser abusado, sem receio de encontrar oposição? Perdoar não é dar passagem livre para o mal. Se alguém pretende fazer algo errado e podemos impedir, temos obrigação de tomar todas as providências cabíveis. Da mesma forma, é mais do que justo exigir que os prejuízos sejam reparados, que a pessoa aprenda a compensar o mal que tenha causado. Mas reparação não é vingança, é oportunidade educativa. Só faz efeito se o caminho do amor e da valorização de quem errou continuar aberto. Nossas prisões não funcionam porque são  violentas e meramente punitivas: não fazem o mais importante que seria ajudar o delinqüente a se recuperar.

E quem não tem dívidas com Deus?

Usando linguagem figurativa, Jesus conta uma parábola. O grande senhor da parábola representa Deus. O primeiro devedor somos nós, as pessoas às quais a parábola se destina. Jesus diz que esse primeiro deve uma quantia imensa. O tamanho da dívida não pesou, a pessoa foi perdoada porque apelou para a misericórdia do credor. Só com isso Jesus já está nos lembrando que nenhum de nós tem “ficha limpa” com Deus. O tamanho de nossas dívidas com o Pai não se mede só com o que fazemos. Tem a ver com a tremenda desproporção entre o que recebemos do Senhor e o que lhe devolvemos em forma de vida a serviço do Reino. Nossa dívida com Deus é do tamanho da vida que ele nos deu. Nossa resposta nunca é tão grandiosa como os dons recebidos. Jesus não diz isso para nos diminuir. Ele, que deu por nós a sua própria vida, nos considera muito mais preciosos do que podemos imaginar, mesmo que sejamos bem vaidosos. O que ele quer é nos aproximar, em humildade e compaixão, daqueles que achamos que estão nos devendo algo. Não somos assim tão diferentes deles. Precisamos também de misericórdia e devemos, no nosso melhor interesse, desejar que a misericórdia seja sempre abundante, para todos.

Perdoar de coração, mesmo!

Depois a parábola de Jesus apresenta um devedor menor, que também precisa de perdão. O primeiro nos lembra o quanto devemos a Deus, o segundo nos fala das ofensas entre seres humanos. Fica clara a desproporção: nossos cobranças humanas se referem a assuntos menores, em comparação com tudo que devemos ao grande Senhor que nos deu a vida e tudo quanto somos e temos. Jesus termina sua parábola dizendo que é preciso não só perdoar, mas perdoar de coração. Talvez ele estivesse pensando em certas formas de perdão que são arrogantes ou em gente que perdoa mas fica sempre lembrando ao outro e ao mundo o erro cometido. É o famoso “perdoa mas não esqueço”. Quem diz isso em geral não se limita a “não esquecer”, fica remoendo o assunto e, no fundo, continua amargurada e amargurando o outro. Pode ser interessante não esquecer nenhuma experiência, boa ou má, que vivemos. É com essas experiências que vamos aprendendo a viver. O que não se deve é lembrar com amargura, como quem continua cobrando o que diz que foi perdoado. Perdoar é dar oportunidade de recomeçar de forma diferente, acreditar que todos nós podemos ser melhores e que um ser humano é obra muito preciosa para ser abandonada. 

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-reitor

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