O maior mandamento da lei

Certa vez o programa Sem Censura, da TV E, entrevistou a escritora cearense Heloneida Studart. Ela falou da solidariedade do povo de sua terra e exemplificou com um costume muito revelador: “Às vezes a jangada volta com menos um tripulante, mas a equipe de pescadores separa sempre para a viúva uma porção de peixe marcada a faca com o mesmo sinal que o falecido usava para marcar seus peixes”. Acontecem coisas semelhantes em outras comunidades: são vizinhos que partilham mantimentos com uma família marcada pelo desemprego;  são mães que ajudam a tomar conta dos filhos de quem sai para trabalhar; são pessoas de todas as classes sociais que põem seu saber a serviço da comunidade nos mais variados projetos. A assistência pessoal aos necessitados é sempre importante.  Muitos não sobreviveriam sem isso. Também é preciso, porém, organizar a sociedade de maneira nova. O resultado do último censo mostrou progressos em vários aspectos da vida dos brasileiros. Mas a concentração de renda não melhorou.  A desigualdade continua ferindo nosso povo. Somos um país cristão que ainda não consegue chegar perto da justiça que Deus exige desde os tempos do Antigo Testamento.

Deus é servido no povo, desde o tempo de Moisés

O povo não foi libertado do Egito à toa. Não adiantaria escapar da escravidão estrangeira para logo depois reproduzir a opressão dos mais fracos dentro do próprio povo. Seria trocar uma escravidão por outra ou, como às vezes dizemos, “trocar seis por meia dúzia”.  Povo libertado tem que ter conduta libertadora. Sofreram no Egito. Sabem o que significa estar desamparado no meio de gente mais forte. Agora são convidados a viver de forma diferente. Mais adiante o livro sagrado vai dizer: “não haverá pobres no meio de vós” – porque a pobreza é sinal de falta de fraternidade, de divisão injusta de bens, de exploração dos mais fracos.

Termômetros da justiça: o órfão, o estrangeiro (migrante) e a viúva

Numa sociedade patriarcal, onde todos dependem basicamente da proteção que vem da família, esse trio representa a essência mesmo dos desamparados. Órfãos e viúvas não têm o tradicional chefe da família que possa zelar por eles. Os estrangeiros aqui, não são turistas endinheirados se divertindo: são migrantes, gente que saiu da sua terra e não tem onde se amparar no meio de desconhecidos de outro povo. Os profetas vão falar muito nesse trio, reclamando dos poderosos a proteção à vida dessa parte mais fraca do povo. Em outros textos bíblicos, quando alguém quer se apresentar como pessoa justa, temente a Deus, afirma que soube proteger o órfão, o estrangeiro e a viúva.

Hoje, nossos órfãos muitas vezes têm pais vivos (mas igualmente desamparados): são meninos(as) de rua, crianças jogadas no trabalho informal ou na mendicância para ajudar a sustentar os adultos, adolescentes drogados, perdidos, sem sonhos. Nossas viúvas são mães solteiras que substituem o pai que sumiu (e que geralmente ninguém responsabiliza), são senhoras idosas que não têm quem cuide delas. E não são só as mulheres.  Desempregados, doentes, idosos são os “viúvos” do nosso sistema. Migrantes, temos muitos, com os problemas que todos conhecemos. Quando chegam a um novo chão, são chamados de “invasores”. Não querem tomar nada de ninguém, mas não podem morar nas nuvens só para não incomodar a sociedade que tomou conta da terra.   

O sistema econômico ou a pessoa?

As orientações seguintes do texto de Êxodo se referem ao sistema financeiro, que naquela época era mais simples. Apontam de forma bem concreta para problemas que hoje aparecem (ou se escondem) nos discursos complicados dos donos do mercado. Primeira regra: não cobre juro dos pobres. Por quê? O pobre não toma dinheiro para investir ou para gastar no supérfluo. Pede o que precisa para viver. Se tem que pagar mais por isso, sua penúria se agrava logo adiante. Também não se pode tomar como garantia de dívida algo que seja essencial para a vida do pobre. No caso do povo da Bíblia, não se pode ficar com o manto do pobre à noite porque ele precisa se cobrir. Para Deus não há dívida, por mais legítima, que justifique deixar um ser humano ao relento, com frio. Nosso sistema financeiro, dentro da mais pura lógica do mercado, faz o contrário: ricos compram à vista e não pagam juros, recebem brindes, são dispensados de certas taxas porque são “clientes que interessam”. Tudo é mais difícil para os pobres. Eles, que não podem chegar atrasados ao trabalho, são os que não têm médico com hora marcada e têm que ficar em todas as filas imagináveis. Estamos acostumados com isso. Acabamos achando natural. Mas será mesmo? Não haveria um outro jeito de organizar a vida? Será que a Bíblia é um livro utópico e Deus está nos mandando recados totalmente impossíveis de serem levados a sério?  Estamos interessados em discutir esses assuntos, apoiar caminhos que levem a algumas soluções? Ou nos limitamos a dizer: a vida é assim mesmo?

Jesus resume a lei, que passa pela caridade fraterna

Os fariseus querem testar Jesus, doidos para que ele diga uma bobagem que possa desmoralizá-lo diante do povo. Chamam-no de “Mestre”, mas não têm de fato confiança no que ele ensina. A pergunta é simples: Qual é o maior mandamento da Lei? Muito se tem falado sobre as minúcias da Lei judaica. De vez em quando alguém lembra que os judeus tinham 613 mandamentos. Isso em geral é dito como censura, num jeito de acusar o povo de Deus de ser legalista e não perceber o essencial. Deveríamos ter mais cuidado com o tom dessas afirmações. Nós, católicos, também temos uma fartura de leis, normas, disciplinas eclesiásticas, Código de Direito Canônico etc. Nesses múltiplos regulamentos alguns se perdem e esquecem o essencial. Se havia no povo de Jesus quem fizesse isso com os tais 613 mandamentos, não estamos assim tão vacinados contra esses exageros; em vez de censurá-los, vale mais tomar cuidado para não fazer o mesmo. Jesus não se perdia em leis menores. Vai ao essencial: amar a Deus e amar ao próximo. Ele não inventou esse resumo. Já havia, antes dele, mestres do judaísmo que tinham chegado a essa percepção. Jesus deve ter aprendido isso no processo da instrução para se tornar um bom judeu. Jesus assumiu essa prioridade como norma de vida, reforçou para nós essa ideia e nos colocou com muita clareza o ponto central dos mandamentos.  

Um critério para julgar todas as normas e regulamentos

Esses dois mandamentos não são apenas os mais importantes, eles são o resumo e o critério para se pôr em prática todos os outros. Disse Jesus: Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. Isso quer dizer que, na maneira de pôr em prática qualquer norma ou costume religioso, devemos sempre nos perguntar se a nossa conduta evidencia o amor a Deus e o amor ao próximo. Uma grande arte na vida de uma pessoa religiosa é saber combinar a fidelidade a Deus com a compaixão e a caridade devida ao próximo. Ser fiel sem compaixão é arrogância. Ser compassivo sem fidelidade é dar licença para todo tipo de abuso.  Nem sempre é fácil descobrir a correta medida dessa combinação. Mas é essencial e temos que pedir ao Espírito o dom do discernimento para podermos sempre aplicar como norma máxima os dois mandamentos que Jesus destacou como fundamentais.

Educando a juventude no amor a Deus e ao próximo

Estamos celebrando o Dia Nacional da Juventude. Os jovens precisam de ideais empolgantes e não são sensíveis a regulamentos menores.  Estamos vendo a juventude ser anestesiada pela propaganda e pelo consumismo. Coração de jovem é inquieto, e muito capaz de querer algo maior, se nós soubermos apresentar a proposta de forma relevante.  Não basta falar, é preciso apresentar à garotada uma comunidade viva, empolgada com o projeto de Jesus. São Paulo falando à comunidade de Tessalônica diz aos cristãos de lá: Pelo vosso exemplo a palavra se propagou para a Macedônia, a Acaia e por toda parte. O exemplo de vida da comunidade falou alto, confirmou a pregação, empolgou pessoas, mostrou que era possível uma vida diferente. Nossos jovens precisam desse tipo de motivação: uma comunidade cativante. E, como jovem não sabe ficar quieto, uma vez cativados eles mesmos se encarregam de espalhar a Boa Notícia do amor cristão.

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-Reitor

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