O bem para alguns ou para todos?

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Quem já não viu crianças resmungando porque o irmão ganhou um pedaço de bolo ou de chocolate maior? A gente dá risada e diz: Qual! É coisa de criança mesmo! Espera-se que as crianças, ao crescer, amadureçam e não fiquem mais medindo e comparando mesquinhamente o que recebem. Nem todos amadurecem. Há pessoas que só dão valor ao afeto que recebem se ele for exclusivo, não se voltar para mais ninguém. Como se amizade diminuísse ao ser multiplicada… Todos sabemos os resultados dessas atitudes: relacionamentos se azedam por excesso de pressão e ciúme, pessoas ficam suspeitando umas das outras, amizades não se desenvolvem. Um ambiente de cobrança afetiva mesquinha acaba se tornando insuportável. Muitos nem percebem como acabam perdendo a consideração e o afeto que tanto queriam porque ansiosamente querem ser valorizados sozinhos, não sabem colaborar, não sabem se alegrar com o bem que cai na casa do vizinho, do irmão, do colega, da sogra, até do companheiro de pastoral. 

Os caminhos do Senhor

O profeta Isaías nos lembra que os critérios de Deus não combinam sempre com os nossos. Não é de espantar. Deus tem mesmo que ser mais generoso que nós, mais capaz de perdoar, mais amplo no seu amor que não exclui ninguém, mais consciente do bem que é possível fazer nascer no meio da humanidade que ele mesmo criou. Ai de nós se não fosse assim!  Que tristeza se o nosso futuro estivesse nas mãos de um Senhor de mente tão estreita como a nossa! Mas Deus é maior! Que bom! No entanto, apesar de mostrar que os caminhos e pensamentos do Senhor são diferentes, mais amplos, o profeta nos convida a buscar o jeito de Deus, não o nosso. Por que? Para ganhar o céu apenas? Não só por isso: também porque o jeito, a misericórdia, o coração generoso de Deus são um modelo para fazer a vida ficar melhor aqui mesmo. Critérios mesquinhos não fazem a felicidade numa família, num povo, numa comunidade religiosa, na vizinhança, no local de trabalho. Buscai o Senhor enquanto se pode achar – diz Isaías. Ele poderia dizer, no mesmo espírito: buscai a fraternidade, a generosidade, a compaixão, antes que esteja tudo perdido, antes que a nossa vida pessoal e o planeta se esfacelem por causa da violência, da competição, da falta de companheirismo fraterno. 

O importante é viver bem, ser construtivo

São Paulo se depara com muitas dificuldades na missão, que incluem risco de martírio. E ele tira uma conclusão forte: morrer ou viver não é o problema (afinal, todos nós vamos morrer um dia), a grande escolha é viver bem, jogar no time da vida, ser uma força positiva no mundo, ter uma vida que faça sentido, que faça diferença. Paulo vai viver esse tipo de vida servindo à comunidade até o dia em que de fato chegará o martírio – e com ele a porta para a ressurreição em Cristo. Todos nós podemos ter vidas construtivas, mesmo os que nunca serão apóstolos famosos como Paulo. Todos nós podemos ser marcos de generosidade, de perdão, de valores que tornam a vida menos mesquinha. Idosos doentes, portadores de deficiência, analfabetos, crianças, jovens – todos estão chamados a ser sinal de coisa boa para os irmãos em grandes e pequenos atos. Todos nós podemos descobrir essa verdade elementar: Todo dia faça alguém feliz e não se espante se no fim do dia a pessoa mais feliz for você. 

Chamados em vários momentos, de diferentes formas

Jesus nos conta a parábola dos operários da vinha que foram chamados em momentos diferentes. Todos nós somos esses operários, chamados para tarefas diferentes, de acordo com as nossas diversas possibilidades. Temos a tentação de medir o que cada um faz, até mesmo na comunidade religiosa. Mas como sabemos realmente do esforço de cada um? Não se pode pedir a uma laranjeira que produza maçãs. Não sabemos das potencialidades reais de cada um, do tamanho diferente do esforço que pessoas diferentes tantas vezes precisam fazer para realizar a mesma tarefa. Mas temos a tendência de julgar, de determinar méritos… como se tivéssemos total conhecimento de causa. Jesus nos convida a acolher com alegria os outros trabalhadores da vinha da vida, da vinha da família, da vinha da Igreja, alegres porque eles existem, porque estão finalmente conosco, sem andar medindo com fita métrica o que cada um realiza.  

Ninguém nos contratou… Que pena!

A parábola nos mostra operários à margem do caminho, sem ter o que fazer, humilhados por se sentirem inúteis. Não eram incapazes nem preguiçosos; eram apenas gente que ficou sobrando, que ninguém se lembrou de chamar e valorizar. Pode ser que haja gente assim na paróquia, na família, na vizinhança. É gente que precisa muito ouvir: Venha! Eu sei que você é capaz! Precisamos de você! É fácil verificar que elogio tem mais poder transformador do que censura. Quem só ouve reclamação pode perder a sua auto estima e acabar até concordando com quem reclama. É triste alguém achar que não serve para nada; é comum que pessoas assim se tornem negativas, acabam tornando realidade o que delas os outros parecem esperar. Por outro lado, sentir-se útil, ser chamado, ver sua contribuição valorizada é um tônico fantástico para o ânimo de uma pessoa. Que tal ver (e proclamar) algum valor numa pessoa com quem você tem problemas? Experimente. Você pode ter uma grande surpresa.

Justo é o que a pessoa precisa para viver

A parábola chega ao seu clímax quando o patrão, que prometera pagar o que era justo, pagou o mesmo salário a todos, sendo generoso com os que tinham produzido menos porque começaram mais tarde. Acontece que a diária de um trabalhador é o que ele precisa para viver. Essa necessidade determina a justiça. Não chegaram tarde por malícia, fizeram o que era possível fazer a partir da sua situação de contratados no fim do dia. Bonito seria se os companheiros se alegrassem com isso em vez de reclamar! Um patrão capaz de pagar um dia inteiro a quem só trabalhou uma parte do dia é uma garantia de generosidade e justiça para todos. O fato devia ter despertado alívio e segurança em todos. Quando os últimos são bem atendidos é sinal de que todos terão o necessário. O mesmo precisa acontecer em nossa sociedade. Há os que não produzem, do ponto de vista do mercado: crianças, desempregados, doentes, idosos enfraquecidos… O mundo será um lugar melhor para todos se nem esses deixarem de ser atendidos. Cada vez que se socorre um fraco, os fortes deveriam ficar mais tranqüilos: um dia eles também podem precisar. A gente dormiria mais em paz se tivesse certeza de que vive numa sociedade onde há lugar e atendimento para todos.

Pe. Sérgio José de Sousa, OSJ
Pároco-Reitor

Leave a Reply

Your email address will not be published.