Feitos para crescer

Talento é uma palavra que saiu do Evangelho e entrou na linguagem social para caracterizar os dotes especiais das pessoas. Quando alguém consegue realizar bem algumas coisas, quando a pessoa se sai bem em alguma área da vida, seja no trabalho ou nos esportes ou, ainda, na arte, dizemos que é uma pessoa talentosa. Desse modo, talento passou a significar um bom músico, um bom atleta, uma boa cozinheira, uma boa dançarina, um bom técnico… enfim, quem se sai bem, quem tem habilidade em alguma área, recebe o elogio de ser uma pessoa talentosa. Foi uma palavra que nasceu nos Evangelhos e ganhou o mercado. Tanto é assim que, hoje em dia, se fala muito de buscar novos talentos para a indústria, para o esporte, para a educação, para a política. Chega-se a ouvir, aqui e ali, que é preciso garimpar talentos. Como dizia, a palavra talentos saiu da boca de Jesus e ganhou as praças públicas para explicar pessoas dotadas de capacidades especiais.

Mas, este não é o conceito que Jesus quer dar a talentos, quando conta a parábola dos talentos, como acabamos de ouvir no Evangelho. Quando Jesus fala de talentos não está se referindo a dotes especiais e, menos ainda, a capacidades especiais de pessoas que se sobressaem. Ele está falando da vida de cada um de nós. E, neste caso, os talentos não são reservados a uma ou outra pessoa, mas a todas as pessoas, ricas ou pobres, jovens ou idosos, com muita ou pouca habilidade em setores existenciais. A minha vida é um talento, a tua vida é um talento, a vida do homem e da mulher é um talento. Para Jesus, talento e vida são sinônimos. Assim, Jesus está dizendo que cada um de nós recebeu talentos desde o dia do nascimento. O modo de entender os “talentos”, na cultura social de nossos dias, é seletivo, quer dizer: somente algumas pessoas, aquelas mais bem dotadas são talentosas. Este não é o significado de Jesus, porque todos recebemos talentos e estes talentos são traduzidos no singular com a palavra VIDA. A minha vida é um talento que recebi de Deus. Esse é o motivo pelo qual não estamos lidando com os talentos de modo seletivo, reservado para alguns, pois Deus nos tornou a todos talentosos ao nos confiar o dom da vida.

Se assim é, entendemos que o contexto da parábola de Jesus fala de investimento dos talentos como convite para investir na vida. Investir os talentos significa investir a vida para que produza mais vida. Isto tem a ver também com o tema que perpassa os últimos Domingos do Ano Litúrgico, que é o tema da vigilância, como dizia a 2ª leitura. Investir nos talentos, investir na vida é um modo de viver na vigilância. A única coisa que não podemos fazer é enterrar o talento, não se pode viver enterrando a vida, como fez o terceiro servo. A vida é investida para produzir mais vida e vida de qualidade. Por isso, tudo que fazemos em favor da vida, para o bem da vida e para a promoção da vida é investimento nos talentos recebidos desde que nascemos. O servo que enterrou os talentos são aqueles que, por exemplo, em nossos dias, favorecem a cultura de morte, seja no cinema, na literatura, nos jogos eletrônicos… mas são também os agressores, como os assaltantes, os bandidos, os que fazem a guerra. Estes enterram a vida. Estes se encontrarão com Deus de mãos vazias.

Outra coisa que difere o significado de “talentos”, na sociedade e no Evangelho, é quanto ao resultado final do investimento. Na sociedade se promove muito o investimento no talento pessoal em vista do bem pessoal, do usufruto pessoal e, dele se serve enquanto é possível ser talentoso. Com a perda da prática, seja pela idade ou por outro motivo, resta a lembrança e algumas homenagens. Se um talentoso investe no seu talento, do ponto de vista social, merece ser vitorioso e celebrado pelo povo. Não existe nenhum pecado nisso. Mas, faço esta comparação para entender que o contexto da fala de Jesus, sobre os “talentos” é de juízo final, uma área que a Teologia chama de Escatologia. Jesus fala dos talentos em vista do final dos tempos. Um dia, todos voltaremos para a fonte da vida, que é Deus. Agora, na vida que vivemos na terra, somos chamados a beber dessa fonte cultivando talentos. Um dia voltaremos para a fonte da vida e só chegaremos a esta fonte levando a vida conosco. A morte, nesse sentido, é uma porta para se chegar a Deus com as mãos cheias da vida que investimos aqui na terra. Na morte cristã ninguém que cultivou a vida na terra chega morto diante de Deus, apenas retorna à fonte da vida, que é Deus. Se nossa vida tiver sido lucrativa, na produção de talentos, trabalhando com o trabalho humano, como ouvimos na 1ª leitura e no salmo responsorial, então entraremos na alegria do Senhor. Veja aquele que enterrou sua vida no mal e na morte; ele mesmo se condena e recebe a sentença por ter sido um servo mau e preguiçoso. Para finalizar: a vida é um talento e, por isso, a vida só tem sentido se formos capazes de produzir mais vida em nós e entre nós. Amém!

Pe. Sérgio José de Sousa, OSJ
Pároco-Reitor

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