DAI-LHES VÓS MESMOS DE COMER!

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Para todos nós, o alimento é não apenas uma necessidade vital, biológica, sem a qual não podemos sobreviver. A alimentação é também a expressão do nosso modo de viver propriamente humano, como família ou comunidade, que na procura e na distribuição do alimento revela a sua solidariedade e os seus valores. Certamente o modo moderno de se alimentar – o “fast food”, a comida tomada às pressas, sozinho, numa lanchonete, num intervalo do trabalho – não tem nada daquele aspecto sagrado, que marca as refeições do povo judaico, segundo os relatos da Bíblia. Nunca um judeu tomaria uma refeição sem agradecer a Deus ou bendizer, sem fazer aquela oração de louvor ou bênção, que reconhece que não teríamos alimento se não fosse pela providência divina. Como diz o salmo da Missa de hoje (Sl 144): “Vós abris a vossa mão e saciais vossos filhos… Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento; vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. Este alimento era, para o povo de Jesus, essencialmente o pão. Para nós, em muitas regiões, seria hoje arroz e feijão; peixe e farinha, em outras. Mas era um pão partilhado, tomado em comum. E do gesto do pai de família de partir o pão entre os filhos, Jesus fez o gesto sacramental que lembra o amor de Deus por nós, especialmente a doação da vida do próprio Jesus. Gesto que repetimos em toda “eucaristia”, ação de graças ou bênção pelo pão e o vinho.

Jesus, novo Moisés, maior que Eliseu

O evangelho deste domingo, conhecido como o relato da multiplicação dos pães, deve ser entendido antes de tudo em seu contexto bíblico. Para os leitores do tempo e do ambiente de Mateus, ele evoca duas grandes figuras do Antigo Testamento: Moisés, que conduziu seu povo através do deserto e o sustentou com o maná (cf. Ex 16,4 ss.), e o profeta Eliseu, que sustentou cem homens com vinte pães. Jesus toma conta do seu povo (o número “cinco mil” é provavelmente um símbolo da totalidade do povo de Deus) com generosidade maior e com mais poder. Ele é maior que Moisés e os grandes profetas (Elias, Eliseu, etc.). Talvez se possa lembrar aqui também o livro de Josué, que descreve a chegada do povo hebreu à terra de Canaã, depois da travessia do deserto. Então o maná deixou de cair e o povo comeu dos frutos da terra, “pães ázimos e grãos tostados” (Js 5,10-12).

A eficácia da palavra: multiplica os frutos

No texto do evangelho de Mateus, o relato da multiplicação dos pães vem imediatamente depois da notícia da morte, do martírio, de João Batista. Jesus dirá: “Se o grão de trigo não morre…”. A paixão do Batista, como a de Jesus, é semente que traz muitos frutos. E logo antes desses relatos, no capítulo 13 de Mateus, do qual ouvimos vários trechos nos domingos passados, Jesus falava de semente, isto é, da sua Palavra e da capacidade que ela tem de dar frutos: trinta, sessenta, cem vezes por um. No relato da multiplicação dos pães, parece-nos ver uma concretização daquela promessa: com cinco pães, e sua palavra, Jesus sacia 5.000 homens, sem contar mulheres e crianças. Saciar com o pão e a palavra o povo de Deus! Esta é a missão de Jesus e a prova de que o Reino de Deus chegou. O que é o Reino ou reinado de Deus? É Deus que reina no coração do seu povo. É Deus que diz “meu povo!” e o povo que diz “meu Deus!” (cf. Jr 24,7; 30,22; 31,33; 32,33; Ez 36,28). Evidentemente, isto não é apenas um sentimento. Ao contrário, é uma realidade visível, é a solidariedade do povo unido, que manifesta assim a presença de Deus no meio dele. A refeição em comum é um sinal ou uma antecipação do que Deus promete aos seus filhos para sempre.

A pouca fé dos discípulos

A multiplicação dos pães acontece depois que Jesus põe à prova a fé dos discípulos. Eles percebem que é preciso fazer alguma coisa: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede – dizem a Jesus – as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”. Poder-se-ia traduzir: cada um se vire! Jesus porém responde: “Não precisam ir embora. Vós mesmos dai-lhes de comer!”. A reação dos discípulos mostra como eles se acomodam e se apequenam diante das dificuldades. “Só temos cinco pães e dois peixes”. Jesus pede que sejam entregues a ele. Confiando no Pai, bendiz o alimento recebido e manda que os discípulos o distribuam… multiplicado. “Todos comeram e ficaram saciados”. O milagre acontece discretamente. Só os discípulos o percebem diretamente. E ainda sobram doze cestos, ou seja, alimento para as doze tribos de Israel. Deus não deixará faltar o necessário ao seu povo. Os discípulos aparecem aqui e em outros lugares (cf. Mt 6,30; 8,26; 14,31; 16,8) como homens de pouca fé. Se tivessem tido mais fé – insinua Mateus – teriam eles mesmos multiplicado os pães e os peixes…

A solidariedade só pode ser concreta

Jesus de qualquer forma exigiu algo dos seus discípulos: que eles entregassem o pouco que tinham. O povo precisa de pão. Jesus, sem dúvida, não quer alimentar o povo apenas com o pão material. Ele mesmo lembrou: “Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). Mas Jesus oferece o pão. E considera que é missão dos discípulos “dar de comer”. Se há fome, no meio do povo de Deus, é sinal de que a vontade de Deus não é respeitada, que o seu Reino não chegou. Pois Deus prometeu: “O Senhor seguramente te abençoará na terra que o Senhor teu Deus te dá em herança, com a condição de obedeceres à voz do Senhor, cumprindo seus mandamentos…. para que não haja pobres em teu meio” (Dt 15,3ss.). É o que compreendeu a comunidade de Jerusalém, da qual o livro dos Atos pode dizer que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). Ou seja: esta comunidade cristã era verdadeiramente povo de Deus.

O recado para nós

Uma mensagem tirada deste evangelho para nós é aquela que o grande pastor, são João Crisóstomo, formulou há séculos: “Aprendamos a maneira com que os discípulos se comportavam com relação às necessidades da vida, seu desprezo por uma existência cheia de luxo. Eram doze e não tinham senão cinco pães e dois peixes. Tinham em pouca conta as coisas do corpo; interessavam-se somente das coisas espirituais. E além do mais não guardaram para eles mesmos aquelas provisões; deram tudo ao Senhor, quando ele pediu. Devemos aprender deste exemplo a partilhar o que temos com aqueles que estão passando fome, mesmo se nós temos pouco. Quando Jesus pede-lhes para entregar os cinco pães, eles não se perguntam: O que ficará para nós comermos? Entregam logo./…/  O lugar onde estão, esta multiplicação de pães e peixes, com exclusão de qualquer outro alimento, esta distribuição  generalizada das mesmas coisas a todos sem exceção, de modo que cada um tenha o mesmo que o seu vizinho, tudo isto ensina aos discípulos a humildade, a caridade, a temperança, o afeto igual que devem ter uns para com os outros, esta comunhão de todas as coisas que devia reinar entre eles…”[1][1]. No Brasil, uma melhor distribuição dos recursos materiais é urgente. Entre dez brasileiros, o mais rico fica com metade das posses ou dos bens; os outros nove devem dividir o resto e para os últimos não sobra quase nada. Há milhões de brasileiros passando fome e muitas crianças são desnutridas, o que deverá torná-las fracas e doentes para o resto da vida. Jesus está pedindo: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”.

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco-Reitor


[1][1] JOÃO CRISÓSTOMO, Homilias sobre são Mateus, 49,1-3.

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