BUSCAR O TESOURO QUE ESPERA SER ENCONTRADO

A vida, a cada momento, nos convida a fazer escolhas. Umas são bem simples, outras tão arriscadas que ameaçam a própria vida: a escolha da profissão; aceitar um relacionamento íntimo com alguém ou não; ser honesto ou não; confiar em alguém ou não; apoiar alguém que está sendo acusado injustamente; defender uma causa que trará vida e dignidade para muitas pessoas.

Todas as escolhas da vida são sérias. Elas constroem a nossa história e a história dela mesma. A nossa vida pode ser avaliada pela “ousadia” com que fizemos certas escolhas.

Investir tudo no reinado de Deus

O evangelista Mateus, no capítulo 13 apresenta as três últimas parábolas do Reino, que nos ajudam a entender melhor a proposta do Pai para nós. A primeira é a parábola do tesouro encontrado num campo. Achar um tesouro desestabiliza a vida diária normal e promove um modo diferente de vida. É como ganhar sozinho um prêmio de milhões na loteria: muda tudo na vida do sortudo. Porém, na parábola, o sortudo não ganha um prêmio, não leva logo o tesouro. Ele o vê escondido num campo que não é dele. Então, vai ter que conseguir comprar aquele terreno. Vai ter também que convencer o dono do terreno a vendê-lo. O homem, embalado pela idéia de tudo o que ele poderá realizar quando ficar rico, vende tudo o que tem, alcança a quantia que o terreno vale e consegue comprá-lo. Agora, ele fica dono do tesouro que há no campo. Vai poder realizar seus sonhos.

Notemos que o homem não faz um “negócio de risco”: ele não quer comprar o terreno pensando em “talvez” ter melhores resultados financeiros com a valorização do imóvel. Ele sabe que há um tesouro enterrado naquele campo e, por isso, o quer comprar. É guiado por essa certeza que ele faz a “loucura” de vender todos os seus bens. É aqui que está a proposta do Pai: o seu reinado é algo tão precioso que vale a pena desfazer-nos de tudo para possuí-lo. Para ficar com esse “tesouro” e poder gastá-lo como quisermos, temos de investir tudo o que temos. Estamos dispostos a isso?


Deus nos excita a buscarmos o bem maior: seu Reino

A segunda parábola é a da pérola de grande valor. Ela é igual à do tesouro e reforça a proposta de Jesus, apresentando-nos o Reino como algo que nos excita, nos atiça a buscar, nos seduz ao ponto de tornar-nos “loucos” e acabar vendendo tudo o que temos para ficar com aquilo que, para nós, é o bem maior: o próprio Reino. Essa parábola também nos ensina algo muito importante de Deus: ele não se apossa de nós, não invade o nosso coração, nem impõe a sua vontade sobre a nossa. Faz-se objeto de nosso desejo. Quer que nós o busquemos como à pérola mais preciosa que existe. Quem não se sente envolvido, encantado, não se compromete. Deus sabe que só assim, trabalhando nossos desejos, nos tornaremos capazes de investir tudo no seu projeto. Quem não quer ser feliz?

Fazer a escolha certa, orientado pela sabedoria de Deus

A tradição judaica consagrou o rei Salomão como modelo de homem sábio. Por isso, no livro da Sabedoria, temos o texto que narra o sonho de Salomão, em que, podendo pedir a Deus o que quisesse, ele pediu a capacidade de servir bem ao povo. A escolha agradou tanto a Deus que ele deu “de brinde” tudo o mais que o rei não havia pedido: muita riqueza, vida longa e uma sabedoria sem igual.

Na Bíblia, a sabedoria não está ligada ao conhecimento acadêmico, nem ao simples exercício do pensar racional, filosófico. A sabedoria de que fala o texto é a sabedoria de vida, é saber discernir e escolher o bem. Não há riqueza maior do que descobrir o melhor modo de viver. Jesus mesmo disse que Deus revelou aos pequenos o mistério do Reino, coisas que ficaram escondidas aos que se consideravam sábios só porque estudaram muito ou porque ocupavam um cargo importante (Mt 11,25).

Tudo vai bem para quem escolhe Deus

Nesta ótica de escolher o melhor podemos interpretar a frase de Paulo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus”. Isso não significa que Deus vai sempre “quebrar o galho”, facilitando magicamente a vida dos seus protegidos. Aqueles que amam a Deus têm critérios de discernimento baseados nas orientações e expectativas do Pai: não ficam livres de problemas e de sofrimentos, mas vêem um horizonte mais amplo, que lhes permite trabalhar melhor com isso. Na verdade, não são os fatos da vida que nos fazem mal; o mal pode vir ou não, dependendo da maneira como vivemos. É por isso que a mesma situação para uns é motivo de desânimo e para outros é estímulo para um salto à frente.

O que realmente tem valor para Deus

A terceira e última parábola de Jesus compara o reinado de Deus a uma rede repleta de peixes. Alguns são bons para o mercado, outros não servem para vender, ou porque são muito pequenos ou porque não são comestíveis. Os pescadores separam os peixes porque sabem que não adianta querer vender ou consumir aquilo que não dá. O que interessa é o peixe que tem valor (nesse caso, valor comercial e nutricional).

Muitos facilmente transformam o valor dos peixes num valor moral, fazendo uma leitura moralista dessa parábola. Infelizmente, os versículos 49 e 50 se prestam para isso, aplicando a parábola ao juízo final (o fim do mundo) e identificando os peixes bons com os justos e os peixes ruins com más (os pecadores). Longe de ver aí as pessoas boas que vão para o céu, e as más que vão para o inferno, podemos ler essa parábola na linha das anteriores, sobretudo na do joio semeado no meio do trigo: as duas realidades convivem em tudo, inclusive dentro de nós mesmos.

Cada um de nós pode ser comparado não a um peixe, mas à rede que tem de tudo dentro. Não seria justo interpretar o texto de Mateus na linha moralista, pois ele já começa o seu evangelho colocando na genealogia de Jesus mulheres que geraram filhos numa situação pecaminosa, ou pelo menos, moralmente duvidosa: Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias (cf. 1, 3.5.6); interpreta a ida de Jesus para a Galiléia como a luz que brilha para o povo que vivia nas trevas (cf. 4, 16); e declara, na casa do publicano Levi, recém-incluído no grupo dos discípulos, que Jesus não veio chamar justos, mas sim pecadores (9, 13)!

Coisas velhas e novas na construção do reinado de Deus

Jesus reinterpreta os ensinamentos de Deus a Israel sob a luz da missão para a qual ele se sente ungido: inaugurar o reinado de Deus na história da humanidade. São usados nas parábolas-símbolos e imagens já consagradas na tradição judaica (semeadura, árvore, fermento, tesouro, rede), porém elas assumem novos significados a partir da prática de Jesus, de seu serviço ao projeto de Deus. Os discípulos devem imitar Jesus e passar essa compreensão aos demais. Assim vivem e mantêm a práxis de “tirar coisas novas e coisas velhas” para construir o grande projeto de Deus.

Essa conclusão das parábolas aponta uma solução conciliadora para o conflito entre o cristianismo e o farisaísmo, no tempo em que o evangelho foi escrito: o tesouro da Igreja é feito de coisas novas e velhas. Nem tudo que é antigo pode ser descartado; é no passado que estão os fundamentos da nossa fé. Há conquistas que não podem ser perdidas. Há, também, coisas que não servem mais. Dessa maneira Mateus vê o judaísmo do seu tempo. Por outro lado, no meio das novidades, nem tudo pode ser descartado como um risco para a fé. O novo é indispensável para a vitalidade da Igreja. Assim Mateus vê o cristianismo. Ter medo do novo, em muitos casos, é algo grave como um ataque de paralisia. O discernimento, em ambos os casos, é fundamental para sermos fiéis ao Deus “que é, que era e que vem”.

Recado para nós

A proposta do Pai para nós, através de Jesus, é o seu reinado. Isso é algo que “mexe” com as nossas buscas, com os nossos desejos, algo tão precioso que vale a pena desfazer-nos de tudo para possuí-lo. Para ficar com esse “tesouro” e poder gastá-lo como quisermos, realizando nossos desejos, temos de investir tudo o que temos no projeto de Deus. Estamos dispostos a isso?

Quando amamos a Deus, adquirimos critérios de discernimento baseados nas orientações e expectativas do Pai: não ficamos livres de problemas e de sofrimentos, mas enxergamos um horizonte mais amplo, que nos permite trabalhar melhor com isso. Através de tudo que passamos, mesmo as dificuldades, podemos construir coisas positivas. Tudo vai bem para quem escolhe Deus.

Temos consciência de que nem tudo o que conseguimos fazer (o que conseguimos pescar) é aproveitável, é bom. Nem tudo serve. É consolador, porém, saber que Deus vai valorizar o que de bom conseguimos fazer: isso lhe interessa! E o que não tem serventia? Não nos preocupemos: será destruído, como se faz com os peixes que não servem para vender nem para comer. Vai ficar só o que é bom. De certa forma, o juízo final é mesmo isso: Deus vai resgatar o que é bom na nossa vida e nos livrar daquilo que é ruim. É como diz uma canção do Pe. José Cândido: “Destrói o que é mau, dá vida ao que é bom”. A certeza é esta: o bem triunfará!

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