A hora de estar preparados é agora

A propaganda que nos cerca usa a segurança como argumento para nos convencer a poupar, a aplicar dinheiro nisso ou naquilo, a entrar em prestações baratinhas que – dizem os vendedores – qualquer um pode pagar. O apelo à segurança vem também do setor da educação. Não é costume dizer que é preciso estudar para desenvolver dons, para compreender melhor o mundo, para poder curtir com prazer maior certos valores culturais. A educação também é apresentada como uma espécie de garantia de futuro. A mensagem que se passa é: consiga o diploma que vai abrir as portas do mercado e lhe dar segurança econômica.

Ninguém nega a necessidade da segurança econômica, material. Sabemos como é angustiante para um pobre nunca saber se amanhã tem como cuidar da saúde, pagar o aluguel, alimentar os filhos. Uma segurança básica, que deixe a pessoas dormir mais descansada, com menos preocupações, é um direito fundamental. Temos que lutar por isso, no nível pessoal e social.

Mas até para ir à luta pela segurança material, temos que ter uma segurança emocional, espiritual. Dizem que o sucesso é uma feliz soma de oportunidade + preparação. As duas são importantes. Não adianta dar oportunidade a quem não está pronto para aproveitá-la. Isso vale também para o nosso crescimento espiritual, que não é desligado das atitudes que tomamos diante dos fatos concretos da nossa vida e da vida do próximo.

Uma boa preparação:  cultivar a sabedoria

A primeira leitura de hoje é do livro da Sabedoria. O texto fala da sabedoria como se ela fosse uma pessoa, que a gente deve sempre procurar. Na Bíblia, procurar a Sabedoria é procurar o próprio Deus. Lemos nos salmos que a fonte de toda sabedoria é o temor (que é respeito, não medo) a Deus. Não é difícil perceber por que é sábio aquele que segue a orientação de Deus. Quem entenderia mais de gente do que o nosso próprio Criador? Quem nos amaria melhor? Quem estaria mais interessado do que Ele no nosso bem? Conhecer a vontade de Deus e por ela se orientar é uma preparação e tanto para as situações comuns ou difíceis que temos que enfrentar.

Para um bem tão grande vale qualquer esforço

Não basta ter uma vaga vontade de andar nos caminhos de Deus, lembrar dele de vez em quando, ou ser, como diz o povo, “gente que só se lembra de Santa Bárbara quando troveja”. Não é que Deus fique zangado com essa atenção pela metade e nos vire as costas. É que meia confiança não funciona, nem com Deus nem com as pessoas. Para poder sentir a força de Deus nos apoiando temos que nos apoiar nele com igual força, em ato de entrega apaixonada. Dois textos de hoje têm imagens bonitas dessa intensidade da procura de Deus. A primeira leitura fala de gente que madruga para ir em busca da Sabedoria (que é a inspiração do próprio Deus) e, ao fazer isso, a encontra sentada à sua porta. Ou seja, se a gente busca Deus com ardor ele vem ao nosso encontro. A outra imagem está no salmo que diz: desde a aurora te procuro, minha alma tem sede de ti.  Quem tem sede de Deus será saciado e fortalecido. E como mostramos essa sede? Estamos interessados em nosso próprio crescimento na fé? Fazemos tudo que está ao nosso alcance para buscar o alimento do conhecimento do Senhor? Ou temos uma religião de devoções superficiais, interesseiras?

A vida inteira é uma preparação

A segunda leitura fala do grande alicerce da nossa fé, a ressurreição. Ela é obra de Deus, não temos sozinhos poder para vencer a morte. No entanto, o que levaremos para a vida eterna tem que começar a ser construído aqui. Valeria a pena meditar esta pequena fábula: Um monge foi visitado pelo anjo da morte; tinha chegado a sua hora. Mas ele argumentou com o anjo: Tem que ser agora? Estou cuidando da horta da comunidade. Se eu for embora agora o que os irmãos vão comer? O anjo resolveu deixar a missão para outra hora. Dias depois voltou e o monge estava cuidando das crianças da comunidade. De novo houve uma negociação e o anjo adiou a morte para outro momento. Voltou uma terceira vez um mês depois e encontrou o monge tratando carinhosamente de um doente grave. Dessa vez nem se falaram: o monge só fez um gesto, mostrando a situação… e o anjo foi embora. Anos se passaram, o monge continuou seus trabalhos, foi ficando velho fraco e desejou morrer. Um dia o anjo apareceu e ele se alegrou. Disse: Que alívio! Pensei que estava zangado com meus pedidos de adiamento e não me levaria mais para a vida eterna junto de Deus. O anjo sorriu e respondeu: Eu só vou completar o finalzinho do caminho. Você já estava entrando na vida eterna quando servia seus irmãos.

A ressurreição é uma glorificação que Deus vai fazer de tudo de bom que construímos aqui. Temos que dar material para Deus trabalhar. Por isso nos preparamos para a ressurreição a todo momento, em cada boa obra, em cada gesto de caridade. 

Para enxergar as oportunidades, temos que andar de lâmpada acesa

O evangelho continua nos alertando sobre a urgência de estar preparados. Jesus usa para isso a parábola das 10 virgens; cinco prudentes, que tinham óleo de reserva para sua lâmpada e cinco descuidadas, mal preparadas. A festa de bodas, símbolo usado na parábola, refere-se às oportunidades de encontro com o apelo de Deus, incluindo, é claro, o grande encontro que se dá na morte. Os sábios judeus dizem que todos devemos nos arrepender do mal feito e nos converter para uma vida melhor pelo menos um dia antes da nossa morte. Como ninguém sabe o dia da morte, esse conselho significa, na verdade, estar sempre preparados e em processo de conversão. A hora da preparação, de acender a lâmpada da conversão, é sempre agora.

Deixar o bem para “qualquer dia” é correr o risco de que ele fique para “o dia de São Nunca”. Estar de lâmpada acesa é prestar atenção ao que acontece, ver as oportunidades construtivas que estão à nossa volta, para não pecar por omissão. O pecado mais comum não é o deliberado ato de prejudicar alguém, é a indiferença, é andarmos tão centrados em nós mesmos que não enxergamos os outros. A lâmpada de Deus, iluminando o(a) irmão(ã), nos prepara para a ajuda e o perdão mútuos. 

Para interpretar bem uma parábola

Quando a Bíblia usa uma parábola, temos que ver a mensagem central. Os detalhes às vezes podem nos confundir. Por exemplo: imagine que alguém lesse essa parábola das virgens e concluísse que quando a gente tem azeite na lâmpada não deve partilhar com quem não tem nem deve se interessar pelo que acontece com os que vão ter que andar no escuro. E se achasse que nunca se deve abrir a porta do acolhimento a quem chega atrasado?  Esses dados fazem parte da história contada, mas não são o objetivo do recado. É bom estar alerta porque muitas vezes as pessoas usam frases soltas da Bíblia para tirar conclusões que não combinam com o projeto de Deus. Como saber o jeito certo de ler? Sempre é bom estudar mais, crescer permanentemente na formação bíblica. Mas, mesmo quem ainda não tem estudos profundos pode se guiar por uma regra bem simples: se minha interpretação do texto me põe num caminho contrário à fraternidade, há alguma coisa errada com o meu jeito de ler.

Estar de lâmpada acesa, preparados para o encontro com Deus, inclui sempre um cuidado, uma solicitude com a luz que precisa iluminar o próximo.

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