15º DOMINGO DO TEMPO COMUM

QUANDO É A HORA DE QUEIMAR?

Amados e Amadas de Deus!

Saúde e Paz!

Há maldades que parece impossível entender. Há pessoas que agem de forma tão cruel ou tão perversa que não parecem ser humanos. Nem podemos dizer que são feras, porque até as feras não matam pelo gosto de matar, nem fazem mal sem motivo. Parece que estamos diante de um mistério, o mistério do mal, do seu poder de seduzir e extraviar os seres humanos.

Certos casos não vale a pena contar. São absurdos e horrorosos. Vimos filhos matando os pais para ficar com a herança ou se ver livres deles. Vimos sequestradores torturar os sequestrados, para obter um resgate. Vimos o que nos parece que Deus não deveria nunca permitir ou tolerar. Vivemos o tempo da pandemia do COVID 19 e nos assustamos e estamos lutando.

Mas a pior decepção talvez seja aquela que sentimos quando algo, que nós mesmos iniciamos a fim de bem, vira tragédia ou se perverte.

Uma experiência assim está na origem, da parábola de hoje, conhecida como a parábola do trigo e do joio. Ela começa relatando que “alguém semeou boa semente no seu campo”. Um dia os servos, observando o trigo crescer, descobriram joio no meio dele. (Nós sabemos – porque o narrador nos avisou – que de noite, às escondidas, um inimigo semeou este joio no campo até então semeado apenas com o bom trigo). Os servos, cheios de zelo, queriam logo arrancar o joio. O dono do campo preferiu aguardar, de modo que, junto com o joio, também o trigo fosse arrancado. Deixou para separar tudo no dia da colheita. Naquele dia o joio poderia ser separado e queimado sem perigo de

Sabemos que havia “servos zelosos” entre os discípulos de Jesus. Um exemplo nos é dado por Tiago e João, que queriam queimar (como o joio!) uma aldeia de samaritanos, que não quis receber Jesus e os seus companheiros (cf. Cl 9,54). O mesmo zelo aparece em João Batista, que no mesmo discurso ameaça duas vezes punir os maus e queimá-los, como palha no fogo (cf. Mct. 3,10-12).

Mas Jesus pensa e age diversamente, porque acha que Deus também pensa e age de outra forma: sem excesso de zelo, com paciência e misericórdia.

Vamos verificar melhor qual é mesmo a vontade de Deus. Pela parábola de domingo passado (Mct. 13,1-9), sabemos que Jesus, falando da semente, está falando do Reino de Deus. O reinado de Deus está sendo semeado, plantado. Certamente florescerá e vingará, dando a colheita que todos esperam. Mas agora – frisa a parábola de hoje – ainda não estamos no tempo da colheita. Somente fizemos a semeadura. É preciso esperar o crescimento.

Há outras parábolas em que Jesus compara Deus ao dono de um campo, que dá mais um prazo para que a árvore dê frutos ou a plantação dê a colheita (cf., por exemplo, Cl 13,6-9). Parece ser este um modo sábio de agir, que visa obter um resultado melhor, para que não seja em vão o esforço de semear e plantar. Mas será só este o motivo de agir de Deus? Ele é somente um agricultor esperto e prudente?

Na realidade, Jesus sabe que o que está em jogo é muito mais que a colheita no campo. Trata-se, como refletimos no início, do “mistério” do mal. Se esse desconhecido inimigo semeou no coração mesmo do ser humano o mal, a perversidade, como Deus deve agir?  Destruir logo o mal, sem olhar para as consequências? Muitas vezes no mal, mesmo na pessoa mais perdida, existe ainda um pouco de bem ou uma chance de conversão, de mudança. Um pouco mais de paciência, apesar de todos os riscos, não poderia obter um bem maior?

E se pensarmos em nós mesmos? Quem de nós poderia dizer que é tão perfeito e puro, que nada de mal tem em seu coração, em sua vida? Quem escaparia totalmente ileso, se os servos de Deus viessem hoje queimar todo o joio? Certamente muito poucos, além de Jesus e de sua Mãe.

Se olharmos para dentro de nós, descobriremos que trigo e joio estão misturados não apenas no campo do mundo, mas no íntimo do coração humano. Realmente é difícil separá-los, agora. É difícil até distingui-los. Muitas vezes não nos aconteceu de julgar trigo bom o que era apenas joio e de pensar que fosse joio algo ou o ato de alguém que era bom? Deus, sim, na hora final da nossa vida, poderá distinguir, julgar com certeza e arrancar o joio e jogá-lo no fogo, assim como nós queimamos o nosso lixo. Mas salvará o nosso ser, tudo o que tivermos amado, tudo o que de bom tivermos feito com a sua graça. Ele quer salvar seus filhos e introduzi-los no seu Reino. O que Jesus quer (em nome de Deus!) não é outra coisa a não ser esta: que a porta do Reino esteja aberta e os filhos entrem. Esta é a missão, da qual Deus nos deu a chave (lembrem o evangelho da festa de São Pedro). A indignação de Jesus é para com aqueles mestres “que não entram no Reino nem deixam os outros entrarem” (Mct. 23,13).

O campo é o mundo, diz Jesus. Mas não está excluindo a Igreja. A Igreja não é uma arca de Noé contendo apenas poucos destinados à salvação. A Igreja é um campo onde trigo e joio se misturam. É o que ensinava Santo Agostinho. “Quantas ovelhas estão fora e quantos lobos estão dentro!”, dizia ele do redil de Cristo. A Igreja é o campo onde há também filhos das trevas e do pecado, joio, chamados, porém a se tornarem filhos da luz, trigo bom, pela conversão e acolhida do Reino de Deus. A Igreja é o campo onde todos podem crescer, converter-se e exercer a paciência de Deus. “Os maus existem neste mundo para que se convertam ou para que os bons exerçam a paciência para com eles” (Santo Agostinho). 

Temos, aqui, um convite para olhar o mundo de forma mais positiva, “apesar do mal que nos cerca”. Sobretudo é um apelo a agir como Deus age. É o que podemos expressar com as próprias palavras da primeira leitura da Missa, tiradas do livro da Sabedoria (cap. 13): “Tu, Senhor, dono da força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação… Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano. E a teus filhos deste a confortadora esperança de que, depois dos pecados, concedes o arrependimento” (v. 18-19).

A paciência de Deus não consiste simplesmente em adiar a hora do castigo ou da vingança! Deus sempre dá um prazo maior porque quer realmente cuidar das pessoas, levá-las à conversão e à mudança de vida, mostrar a elas misericórdia e benevolência. É assim que nós também nos comportamos com os irmãos, mesmo com aqueles que andaram semeando joio em nosso campo e feriram o nosso coração?

Padre Sérgio José de Sousa, OSJ

Pároco – Reitor

Paróquia Santuário Santa Edwiges – SP

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